Ao contrário das pílulas comuns que a gente engole com água, essas saem. Agridoces como eu.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
domingo, 18 de novembro de 2007
Então é Natal
PS: A obrigação do sentimento de felicidade me sufoca mais do que andar na 25 de Março nessa época.
Comemorar, recordar
Saudade é a inclinação da alma na direção das coisas amadas que se perderam e continuam presentes como dor
É PRECISO PREPARAR A ALMA com antecedência para o evento. O tempo da "comemoração" se aproxima. Comemorar quer dizer "trazer de novo à memória". Para quê? Para que se cumpra o ditado popular que diz "recordar é viver". Dentre todos os seres vivos os seres humanos são os únicos que se alimentam do passado. Eles comem aquilo que já deixou de existir.Proust deu o nome de "Em Busca do Tempo Perdido" à sua obra clássica. Se está perdido irremediavelmente no passado, por que se entregar à tarefa inútil de procurá-lo?Por fora, no mundo cotidiano do trabalho, estamos em busca de coisas novas. Mas a alma, nas penumbras em que mora, vive à procura de coisas velhas. Alma é saudade. Saudade é a inclinação da alma na direção das coisas amadas que se perderam. Foram perdidas e, a despeito disso, continuam presentes como dor: "...Que a saudade dói latejada, é assim como uma fisgada no membro que já perdi..." Saudade é a presença de uma ausência.Para a saudade não existe cura. Tudo o que podemos dar a ela como consolo é inútil. Por isso, Fernando Pessoa escreveu: "Mas por mais rosas e lírios que me dês, eu nunca acharei que a vida é bastante. Faltar-me-á sempre qualquer coisa, sobrar-me-á sempre de que desejar..." A alma é como um queijo suíço, toda cheia de buracos que doem no seu vazio...Há um esquecer que é uma felicidade. É como mar que limpa e alisa a areia que os humanos haviam pisado na véspera sem pedir desculpas. Já tive essa estranha sensação bem cedo na praia diante da areia lisa, um sentimento de culpa por machucá-la com meus pés... O esquecimento alisa a areia. Tudo fica puro, como se fosse a primeira vez. Isso, do lado de fora. Mas lá no fundo, onde mora a saudade, não há esquecimento. Porque lá só moram as coisas que foram amadas. E o amor não suporta o esquecimento. "Aquilo que a memória ama fica eterno", escreveu a Adélia.Há a estória daquele homem dilacerado pela dor da saudade de sua amada que morrera. Em desespero, dirigiu-se aos deuses pedindo que a devolvessem. "A morte é mais forte que nós", responderam os deuses. "Não podemos devolver o que a morte levou. Mas podemos pôr um fim ao seu sofrimento. Podemos fazê-lo esquecer a sua amada. Podemos curá-lo da saudade..." Horrorizado o homem respondeu: "Não, mil vezes não! Pois é o meu sofrimento que a mantém viva junto de mim!"Palavra boa para dizer isso, parente de "comemorar", é "re-cordar". Pus o hífen de propósito para destacar o "cordar", que vem do latim "cor", que quer dizer "coração". Há memórias que moram na cabeça, muito úteis. Se nos esquecemos delas, cuidado! Pode ser Alzheimer se anunciando! Essas memórias não doem, são informações que levamos no bolso, ferramentas. Mas há outras memórias que moram no coração, são parte da gente. O Chico sabia e escreveu: "Oh pedaço arrancado de mim..."Já estou preparando a minha alma para o evento. O Natal vai fisgar o membro que já perdi. Perdi a minha infância. Gostaria mesmo era de ir para um mosteiro, longe de comilanças, presentes e risos. Num mosteiro eu poderia experimentar a bem-aventurança na alma que Fernando Pessoa descreveu como a alegria de não precisar de estar alegre... Eu gosto da minha tristeza natalina. Ela é verdadeira. Sou como aquele apaixonado que não queria ser curado da saudade...
Coluna do Rubem Alves, publicada na Folha de S. Paulo do dia 13 de novembro de 2007
terça-feira, 13 de novembro de 2007
O ano em que fui expulsa da Terra do Nunca
Todo esse nariz de cera é pra dizer que embora estejamos na primeira quinzena de novembro, o ano já acabou! E todo final de ano todo mundo faz aquele bendito balanço do que aconteceu e promessas para o ano seguinte. E eu, que nunca fui dessas de fazer listinha de final de ano, que sempre dão em nada, estou aqui...
Embora sempre solte aquela frase “Nossa, como o ano passou rápido”, o meu 2007 teve doze horas a mais do que os outros. E essas horas fizeram toda a diferença. Tudo foi muito diferente. O primeiro dia do ano foi muito frio. E parece que nunca mais esquentou. Mas pelo menos, pude aproveitar a neve para experimentar a insanidade de descer uma montanha de gelo em cima de uma prancha.
Outra insanidade, pelo menos para uma sedentária convicta, foi pedalar trinta quilômetros- ida e volta- para passar duas horas na praia. No frio. Na lista também estão passar catorze horas de pé (passei mais horas de pé do que em toda a minha vida de usuária de transporte público), trabalhar, sete dias por semana por várias semanas (ah, mencionei as variáveis “bengala” e “tala”?), olhar duas mil peças iguais por dia; seis meses na completa abstinência da sétima arte; descobrir através de gestos que estava numa cidade completamente estranha, num país estranho à meia-noite na véspera da volta ao Brasil...
Mas teve as descobertas! Experimentar iogurte de babosa (e achar bom); experimentar gafanhoto caramelizado ( esse é mais ou menos); andar sozinha de trem na segunda de manhã em Tóquio (nem foi tão traumatizante); conhecer alguém que vem de um país que se chama Uzbequistão, dormir numa cápsula igual ao do filme “Quinto elemento”, viajar de uma ilha estranha para outra mais estranha ainda sozinha e nada de ruim acontecer; sentir nos pés a água gelada de outro oceano, além do Atlântico; mergulhar na água azul turquesa e sentir um barato muito bom (e lícito); aprender algumas coisas, mesmo que poucas sobre um país completamente estranho, mas que de alguma forma faz parte de mim; ver o tal do Monte Fuji, mesmo que de longe; andar no trem bala, ver o sol nascer na Terra do Sol Nascente...
E o que fez a completa diferença: encontrar e reencontrar pessoas. As minhas pessoas. Aqui ou lá. E começar a aprender a partir, regressar, abandonar, ser abandonada, despedir, comemorar, mudar. Que venha 2008.
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Hello Stranger
Sim, eu assisti ao filme e à peça "Closer", com aquelas frases pontuais que acertam em cheio, dependendo da sua situação, a cabeça, o coração ou a boca do estômago. Amor à primeira vista, amor eterno, relacionamento perfeito, pessoas perfeitas. A busca obstinada de tudo isso é a combinação, essa sim perfeita, de uma bomba de altas expectativas que caem sobre os pequenos e grandes defeitos que cada um carrega. E eu acho que isso é ser normal.
Assisti também ao filme "Bonecas Russas"um dia depois de ver a peça. E a personagem Wendy resume a "elevação espiritual" que me (nos) falta. Ela diz que Xavier é o homem perfeito, embora até ele saiba que está bem longe do ideal de qualquer pessoa. O segredo é que ela se apaixona por ele. E por todas as suas imperfeições. Por sua vez, ele, um cara "normal", continua perseguindo a garota ideal.
Vivemos sempre em busca do ideal, do excepcional, abrindo o souvenir russo um a um, esperando que aquela seja a última boneca, a especial. E, ao chegar naquela pequeninha, a decepção do "era só isso" é quase sempre inevitável. Se todo mundo acha que ser normal é que é bom, por que ninguém, a não ser a Wendy, aceita a normalidade daquels que cruzam nosssos caminhos? Aqueles que deixam de ser estranhos perfeitos para se tornarem companheiros normais. E, por que não, adoráveis.
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Dúvida cruel
Cruzar a avenida movimentada quando o homenzinho verde aparece, trombando com pessoas que quase me atravessam sem nem se darem conta é uma dessas experiências. Meu nominho piscando em azul no computador e nenhuma resposta do outro lado. Várias ligações telefônicas, algumas eu tenho vontade de fazer, são ignoradas. Ele está em reunião. Ela está ocupada. Ele saiu. Eles não estão. E eu, estou?
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Insatisfação crônica
Pílula de dúvida: o que equivaleria à TPM no homem?
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
Túnel do tempo
Alento por saber que você está ao meu lado mesmo separados por um fuso horário maluco, uma espécie de túnel do tempo. Eu no futuro, mesmo que seja num futuro de apenas 12 horas, e você num passado mais do que presente.
É engraçado como nessas situações a gente cria coragem de revelar sentimentos como admiração e cumplicidade não imagináveis, pelo menos não por mim, até então. Não queria cair naquele lugar comum de dizer que a gente só dá valor quando não está ao alcance, mas talvez tenha sido inevitável.
E se hoje estou aqui, quase firme e forte, é porque você continua ao meu lado. No mesmo continente, país, estado, cidade, na mesma sintonia. Você sabe que sempre sonhei ter asas para voar por aí, mas sei que elas devem ser sinônimo de liberdade e não de fuga...
Por isso decidi ficar e encarar a vida, esta a que fui lançada. Decidi abraçá-la e pagar para ver. E aqui, sei que sempre que o claustro começar a se fechar ao meu redor, ainda terei as suas cartas. E principalmente, você.
domingo, 2 de setembro de 2007
Conhece-me e cativa-me
Tanto fez, que hoje é parte da minha vida. Parte importante. Não sei exatamente o motivo que fez você achar que valia a pena, mas sou muito agradecida por sua obstinação. embora não tenha o hábito de te dizer, você é muito especial para mim. Embora também não pareça, juro que me esforço para fazer valer a pena, que seu feeling sobre mim esteja certo...
É isso! Você me conhece de verdade e, mesmo assim, permanece ao meu lado. Obrigada.
"- Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo..." (...)- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. O homem não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga cativa-me! Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa.
E continuou:
- Mas tu não deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." Trechos do livro "O Pequeno Príncipe" de Antoine de Saint-Exupèry, que li, embora nunca tenha sonhado em ser miss.
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
Auto-suficiência
A vida secreta das palavras
Para quem passou alguns anos estudando a importância de escolher uma palavra em vez de outra, de juntar uma a outra deforma que faça algum sentido, que transmita a mensagem como desejamos, sabe do que estou falando. As palavras, depois que saem da boca ou da ponta da caneta, já não nos pertencem mais.
No mundo dos e-mails, conversas instantâneas pelo computador ou celular, scraps, em que não há entonação e não encaramos o nosso interlecutor, as palavras certas ou erradas podem ser cruciais. Admito que sou uma dessas pessoas que medem as palavras nessas ocasiões. Nessas e em muitas outras. E, por isso mesmo, quando encontro um interlocutor que domina este mundo, sinto-me ameaçada. O que ele quis dizer com isso? É o que eu estou pensando? É um jogo? Ou é apenas um “oi”?
Para muitos, um “oi” no orkut ou uma mensagem de boa noite no celular são apenas isso. Por que então dedico tanto tempo relendo e analisando essas mensagens? Sim, devo fazer parte do tal grupo obsessivo e paranóico que procura pistas nas entrelinhas...
“Fabiano admirava as palavras bonitas das pessoas da cidade, mas sabia que elas eram perigosas. Pessoas e palavras”. Trecho do livro “Vidas Secas” de Graciliano Ramos